Quais métricas servem para avaliar o sucesso de uma instância no Mastodon? Essa foi uma das perguntas que surgiram ontem na mesa redonda sobre plataformas alternativas organizada pela AoIR (Association of Internet Researchers), associação da qual faço parte. Um dos colegas, o Kevin Driscoll, apontou um aspecto que eu e outros pares concordamos, as métricas relacionadas a engajamento, números de likes, número de compartilhamentos e aquilo que se conhece como alcance, são métricas que pertencem ao vocabulário das mídias sociais corporativas, sua lógica extrativista e de lucro por cima de valores como bem-estar social e satisfação do usuário. Nesse sentido, e aqui trago a pergunta feita pela minha colega Lia Amancio, quais seriam as métricas que nós, os que incentivamos às instituições públicas pela adoção de mídias descentralizadas como o Mastodon, precisamos para expressar níveis de sucesso das instâncias que administramos e que seguimos, para convencer outras instituições públicas e organizações de participar e investir no fediverso?
Rob Gelh, pesquisador, chair da AoIR e admin da instância da associação, propõe usar a métrica relacionada ao incremento de servidores nos últimos meses, assim como a diversidade dessas comunidades. Eu considero que além de métricas, devemos destacar os valores que a estrutura e o design do Mastodon proporcionam: resiliência, soberania digital, e capacidade de resguardo do acervo digital. Assim como também, a possibilidade de disponibilizar informação e conhecimento de interesse público realmente aberto às pessoas, sem jardins murados como os que erguem as plataformas das big techs.
Outro aspecto importante a se destacar é a capacidade de ter o resguardo do acervo digital produzido por instituições públicas que pode se conseguir quando se cria a própria instância no Mastodon. Por exemplo, nesses dias fiquei sabendo que a Secretaria de Comunicação da Unicamp (SEC) hoje possui um grande acervo de conteúdo de divulgação e comunicação científica, a maioria hospedado no YouTube e no Instagram. Quando questionei uma colega jornalista que produz parte desse conteúdo sobre se tinham um site ou alguma hospedagem desse acervo fora das plataformas corporativas, a resposta foi não. Quer dizer, as pessoas que tem interesse em ver esse conteúdo da SEC e não tiverem contas ou não tiverem interesse em usar as plataformas corporativas para acessar a dito conteúdo, não poderão vê-lo. Mas o que mais preocupa é, que se amanhã a Meta ou o YouTube decidirem banir as contas da SEC, como já tem feito com diversas contas de instituições públicas, a probabilidade desse acervo ser perdido é muito grande. Acervo perdido, trabalho perdido, dinheiro público perdido.
É por isso que devemos insistir na prática do princípio plus one (mais um), como apontado pelo Ralf Stockmann. O princípio plus one propõe que se instituições públicas criam e usam contas nas plataformas corporativas privadas para postar ou divulgar informação e conteúdo de interesse público, deveriam considerar pelo menos uma plataforma aberta com gastos financeiros e estruturais comparáveis. A proposta visa garantir o acesso dos cidadãos e cidadãs ao conteúdo e a informação de interesse público feita com dinheiro público, e assim, evitar a lógica dos jardins murados que exigem a criação de contas, a entrega de dados e a perda da privacidade.
Em resumo, as métricas são importantes, mas garantir o acesso ao conteúdo e informações de instituições públicas é fazer valer direitos democráticos que permitem a prática de valores como inclusão, diversidade, cuidado dos dados e da privacidade das pessoas. E esses valores deveriam de ser considerados pelo menos por instituições públicas que se assumem democráticas. Garantir o acesso de forma segura e livre à informação de interesse público pode ser uma característica que deveríamos colocar por cima de qualquer métrica de vaidade criada pelas plataformas corporativas que pouco se importam em resguardar e cuidar de valores relacionados à democracia.