Aconteceu no último dia 2 de março o un-workshop do FediForum, um evento online que reuniu a comunidade global de pessoas interessadas em ampliar o alcance da chamada Rede Social Aberta (também conhecida como o Fediverso). O encontro buscou discutir os benefícios dessas plataformas, analisar obstáculos ao seu crescimento e propor caminhos para ampliar sua adoção, além de conectar iniciativas e pessoas que atuam nesse campo.
O evento foi organizado por Johannes Ernst, fundador do FediForum, e Mike Masnick, membro do conselho de administração do Bluesky. Entre os participantes estiveram ativistas, pesquisadores, profissionais de tecnologia e representantes de organizações da sociedade civil. Também participou Elena Rossini, uma das mais conhecidas influenciadoras do fediverso.
Pessoas de pelo menos quatro continentes estiveram presentes. Como parte desse grupo, Damny Laya representou o Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) e foi um dos dois latino-americanos no encontro, ao lado de Ayrton Araújo (Ton), da Fundação Alquimídia, que atua no fortalecimento da comunidade no Brasil.
O encontro foi dividido em três sessões. A primeira, intitulada “Onde estamos, o que está funcionando em termos de crescimento e o que não está?”, contou com a participação de Laya quem apresentou a experiência do Nudecri com seus servidores no Mastodon e no PeerTube. Foram destacados avanços obtidos com a integração entre o WordPress e o Mastodon por meio do protocolo ActivityPub. Com isso, todas as publicações feitas nos sites do núcleo passam a aparecer automaticamente como posts nas contas do Mastodon. Essa integração já está ativa nos canais do podcast Oxigênio, da revista ComCiência e do blog do projeto O Plano B.
Também foram compartilhados desafios enfrentados na tentativa de ampliar o engajamento de pesquisadores e pesquisadoras do Nudecri nas plataformas federadas. Entre as questões levantadas esteve o papel das instituições públicas como as universidades no crescimento dessas redes: como estimular seu uso e criar incentivos para que organizações públicas adotem plataformas descentralizadas?
Essas perguntas foram retomadas nas mesas de discussão que se seguiram à primeira sessão e às falas apresentados por outros participantes. Entre as propostas discutidas para ampliar o uso do Mastodon esteve a criação de starter packs — conjuntos de perfis e conteúdos recomendados para ajudar novos usuários a iniciar sua experiência no fediverso. A ideia seria facilitar a adaptação de pessoas acostumadas às redes comerciais das grandes plataformas para um ambiente baseado na construção de comunidades e não em algoritmos de recomendação e rolagem infinita.
A segunda sessão abordou os “obstáculos ao crescimento futuro que precisamos superar”. Entre os pontos levantados esteve a necessidade de interoperabilidade entre plataformas comerciais e redes descentralizadas. Alguns participantes argumentaram que redes como X, Instagram ou Facebook deveriam permitir a migração mais fácil de seus usuários, possibilitando que levassem consigo suas redes de seguidores ao criarem contas em plataformas federadas como Mastodon ou Bluesky.
A terceira e última sessão discutiu caminhos para o crescimento futuro das redes federadas. Uma das estratégias sugeridas foi atrair coletivos, comunidades, universidades, sindicatos e outras redes já estabelecidas para criarem seus próprios servidores. Também se destacou a importância de engajar o setor público, seguindo exemplos de governos e instituições que já adotam plataformas federadas, como França, Alemanha, Holanda e a própria Comissão Europeia.
Outra proposta debatida foi a criação de mecanismos de monetização dentro das redes federadas. Isso poderia atrair criadores de conteúdo, artistas e influenciadores que atualmente dependem das plataformas comerciais para manter suas atividades. Como resumiu um dos participantes, trata-se de construir “um espaço melhor para que as pessoas possam ganhar dinheiro para si mesmas, e não para as plataformas”.
Também foram discutidas iniciativas para desenvolver aplicativos que funcionem como porta de entrada para as redes federadas. Nesse contexto, a Fundação NewsMast apresentou o programa Apps for Change (Aplicativos para Mudança), que oferece suporte técnico para a criação de aplicativos destinados a organizações e comunidades, integrados às redes sociais descentralizadas. Outra ideia mencionada foi desenvolver serviços federados para áreas específicas, como plataformas de hospedagem semelhantes ao Airbnb.
O encontro reuniu diferentes perspectivas sobre o futuro da Rede Social Aberta, com a participação de programadores, artistas, profissionais de negócios, acadêmicos e representantes de movimentos sociais. Ao final do evento, os organizadores convidaram todos para a próxima edição online do FediForum, a sétima da história da iniciativa, que ocorrerá entre os dias 28 e 30 de abril. As inscrições já estão abertas.